Escolher músicas para um grupo grande sempre envolveu algum grau de tentativa e erro. A diferença é que já houve bem mais referências em comum para orientar essa escolha.
Durante décadas, rádio, televisão, novelas, programas musicais e lojas de discos concentravam boa parte da descoberta. Pessoas com gostos diferentes acabavam expostas a muitas das mesmas músicas.
Hoje, essa lógica mudou bastante.
O catálogo disponível cresceu, os canais de descoberta se multiplicaram e cada pessoa recebe recomendações cada vez mais próximas do próprio histórico. Isso torna a experiência musical mais individual e deixa uma pergunta menos simples para quem organiza eventos: o que esse grupo conhece?
Faixa etária costuma ser uma das primeiras informações consideradas na escolha do repertório. Faz sentido até certo ponto.
Quem viveu a adolescência nos anos 1990 provavelmente teve mais contato com determinados artistas e músicas daquele período. Mas isso não permite concluir que duas pessoas da mesma idade tenham repertórios parecidos.
Cidade, família, grupo social, hábitos culturais e preferências pessoais mudam bastante essa história.
Também ficou muito mais fácil descobrir músicas fora da própria geração. Uma pessoa pode ouvir artistas mais antigos por influência dos pais e acompanhar lançamentos recentes por indicação dos filhos. Filmes, séries, games e redes sociais ainda devolvem músicas antigas para públicos que não estavam por perto quando elas foram lançadas.
Por isso, tratar repertório como sinônimo de geração costuma produzir seleções previsíveis demais.
Uma pesquisa publicada na Frontiers in Psychology, por exemplo, identificou diferenças relevantes de gosto mesmo dentro de gêneros amplos como rock, pop, metal, música clássica e eletrônica. Gostar do mesmo gênero está longe de significar escolher as mesmas músicas.
Para um evento corporativo, a consequência é bastante prática: conhecer idade e perfil profissional do público ajuda, mas não entrega uma playlist pronta.
Antes do streaming, também existia consumo musical bastante individual. A diferença está na escala.
Hoje, duas pessoas podem usar a mesma plataforma e receber recomendações completamente diferentes. O histórico de reprodução, artistas salvos, músicas puladas e outros comportamentos ajudam a formar seleções específicas para cada usuário.
Ao mesmo tempo, uma música pode circular por caminhos pouco previsíveis.
Uma faixa lançada décadas atrás pode voltar a aparecer numa série, virar trilha de vídeos ou ser descoberta por alguém que nunca teve contato com o artista original.
Com isso, o vínculo entre música e época ficou menos direto.
Uma canção dos anos 1980 pode ter valor nostálgico para parte do público e ser uma descoberta relativamente recente para outra. As duas pessoas conhecem a música, mas chegaram até ela de maneiras completamente diferentes.
Esse também é um ponto importante quando se pensa em repertório coletivo.
Existem músicas que muita gente reconhece logo nos primeiros segundos. Elas podem funcionar muito bem num evento porque o refrão é conhecido, porque lembram determinada época ou simplesmente porque foram muito tocadas.
Isso não quer dizer que estejam entre as músicas favoritas de alguém.
Da mesma forma, uma música muito importante para uma pessoa pode ser completamente desconhecida para o restante da equipe.
Uma playlist definida previamente precisa tentar equilibrar essas duas coisas: preferência e reconhecimento.
Quando parte do repertório vem das escolhas dos próprios participantes, começa a surgir outro tipo de informação: músicas que ninguém teria escolhido numa curadoria corporativa, artistas que atravessam idades e referências em comum que não estavam previstas na segmentação inicial.
Às vezes, a preocupação com o repertório parte da ideia de que existe uma seleção capaz de agradar ao grupo inteiro. Provavelmente não existe.
E isso não atrapalha uma experiência musical coletiva.
Num evento, uma música escolhida por uma pessoa pode ser reconhecida por outras vinte. Outra pode surpreender justamente porque ninguém imaginava que aquele colega escolheria aquele artista. Uma terceira pode colocar gente de áreas e idades diferentes cantando o mesmo refrão.
Esses encontros são mais difíceis de prever, mas também são parte do interesse de uma experiência musical participativa.
Para quem organiza um evento, talvez a melhor resposta para tanta variedade de gosto não seja procurar algo que agrade a todo mundo.
Pode ser mais interessante deixar que o próprio público mostre o que quer ouvir.
Com isso, parte do repertório do evento deixa de ser uma suposição de quem está organizando e passa a vir de quem está ali.
Não significa abrir mão de curadoria ou planejamento. O evento continua tendo um formato, uma condução e um repertório disponível. A diferença é que não cabe à empresa decidir sozinha o que aquele grupo deveria gostar.
Se a equipe ouve de tudo, talvez não seja necessário descobrir antes exatamente o quê.
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